
Um cinéfilo tem de penar amarguradamente para ter acesso a revistas da especialidade. Hoje com a internet, essa informação está à distância de um clique, com a vastidão da
World Wide Web a trazer-nos o que de melhor (e pior, acreditem) há em cinema. Com uma identidade mais pessoal e populista, a internet (e o que daí advém, como blogs e fórums sociais) é cada vez mais o suporte que prevalesce.
Mas voltemos ao passado. Um passado que não exigia
Banda Larga nem
Login. Era um passado em que passava diversas vezes pela papelaria do costume, esperando por AQUELA revista.
Para mim, pelo ano de 1996, o princípio de tudo surgia pelo nome de
TvFilmes. Aquela revista que corajosamente pretendia ser a TvGuia do cinema. A lista dos filmes do mês nos quatro canais generalistas, compactada em algumas páginas, com referência a uma minúscula ficha técnica e a classificação de qualidade do costume. Era também impressionantemente preciso e exacto na data e hora das suas emissões. Nada como os dias que correm, que apenas existe um "filme a definir".

Páginas de programação da TV Filmes (cliquem para cuscar!)
Como posso eu categorizar a
TvFilmes? Era primeiro que tudo, a única revista portuguesa do género, com entrevistas que não me faziam diferença nenhuma, mas com alguns artigos especiais de me elevar a curiosidade pelas coisas da sétima arte.

Duas capas de 1999. A da direita foi o último número a sair.
Foi com esta revista que descobri pela primeira vez uma lista dos 100 melhores filmes da AFI, foi com esta revista que li uma retrospectiva sobre os filmes de ficção-científica absolutamente inesquecíveis (e eu não conhecendo alguns deles, dava por mim a grunhar de tanta ignorância). Foi com ela que mantive a paixão pelo cinema aliada à minha colecção de VHS, enquanto não viria outro modo de leitura.
Uma leitura mais global e teórica apareceria anos mais tarde, por volta de 1998, após o a TVFilmes fechar portas (E mantenho em casa TODOS os números desta singular revista). Com o desaparecimento dessa tal revista, a procura por um substituto era obrigatória: Encontraria a Premiere francesa numa papelaria próxima de minha casa e isso seduzia-me bastante (àparte o preço mais elevado, a língua não me era estranha). A peregrinação quase religiosa em busca dessa substituta fazia-me estar ainda mais em cima das papelarias, já que era posta nas bancas sempre com uma semana ou duas de atraso. Mas a espera valia a pena. Os artigos eram mais teóricos, mais especializados, mais profissionais e menos mainstream. Fez-me descobrir os nomes desconhecidos e as obras de culto que por cá não tinham interesse em explorar. E os posters destacados nas últimas páginas eram sempre um regalo...

Premiere FR E em 1999, a saciação cinéfila completava-se: A
Premiere lançava uma edição em
português. E com isso veio a compra em duplicado dessa revista. A tuga e a francesa...
Os Dias de Criswell apanharam-me desde o primeiro número e dava-me conta de um lado mais "pessoal" e divertido da cinefilia, numa altura em que os blogues não eram ainda uma tendência. É a revista portuguesa de cinema que mais anos esteve nas bancas, com o tal famoso interregno em 2008.
Nas minhas viagens a França (outra viagem de regresso ao passado), deparei-me numa papelaria local com uma revista não só exclusiva ao cinema, como também a um género e uma especialidade: A
SFX - cinema magazine. A "Special Effects" (FX) era um mundo de desconstrução de efeitos especiais, dando conta de como eram criados os efeitos dos maiores filmes do mês. Nesse ano de 1997 calhou-me a análise ao
MIB e
5º Elemento. Babei-me na revista e jurei comprar mais algumas.

Tal tarefa passou pela encomenda internacional, de números antigos, desde 1994 a 1996. Depois apareceram outras revistas mais baratas, mais fáceis de obter e principalmente, a revolução chegava: Era o boom da internet.
Não tendo computador em casa por volta de 1998, o único que tinha por perto era o da escola. PC partilhado, era necessário marcar hora, como inscrição, para aceder por uma hora a essa tal internet. Nessa altura, os documentos sobre cinema não abundavam. Não havia fórums especializados, nem blogs que lançavam
spoilers como um vírus maligno... Mas havia coisas que me deixavam vidrado:
Tabelas de Box-office.
Sim, Box-office. Quando era miúdo, esses registos mantinham-se fechados. Apenas se sabia que "filme X e Y eram um sucesso mundial". Mas números, nem vê-los. Foi então que vi numerações, classificações e informações que não fazia ideia! Por acaso era a época do Titanic, filme que quebrava recordes semanalmente e eu acompanhava então um fenómeno que então começava a compreender. Nada daquelas fantochadas de "bateu todos os recordes" ou "campeão de bilheteiras"que lia a cada filme que fizesse uns 100 milhões de dólares, como aconteceu com
O Fugitivo em 1993 ou o
Goldeneye em 1995. Ali era
the real deal...
Lá imprimia as tabelas anuais numa daquelas impressoras de agulhas, horríveis mas única hipótese de manter as informações em meu poder. Lia e analisava em casa, deparando-me com algumas surpresas (como não fazer ideia de que
Forrest Gump tinha feito mais dinheiro que
Rei Leão). Aventurava-me para outras tabelas, as
mundiais (que por essas alturas ainda não tinha nada de
Piratas,
Harry Potters ou
Lord of the Rings, entre outros mais modernos) e as de
ajustamento inflacionado, aquele tema que
tanta polémica me cria aqui em casa... Ver que
Gone with the Wind era campeão indiscutível deixava-me atónito, mas saber que o original
Star Wars estava logo abaixo deixava-me aliviado.
Era esse tipo de Trivia que me satisfazia. O outro lado do cinema, como quem vê a bola pelo olhar de um qualquer
Championship Manager. Era um admirável mundo novo, a de aventurar-me pela internet.
Ler notícias sobre estreias e anúncios de rodagens via online, ver os trailers mais recentes sem ser na televisão ou no cinema antes de qualquer outra pessoa, ou como finalmente criar um blog sobre cinema e tudo o que gira em seu redor e baptizá-lo de
brain-mixer. Era o culminar de uma viagem cinéfila, que me tomou uma vida. Era o partilhar de uma paixão com outras pessoas que gostam do mesmo que eu. Já lá vão 5 anos, muitos, para quem gere um blog. Mas cada tecla, cada imagem, cada comentário vale bem a pena o esforço dispensado. Era a internet a dar-me os frutos que semeara num terreno fértil, onde hoje se encontra aquela árvore do conhecimento.
Para concluir uma aventura que durava a minha vida, tudo isto me levou finalmente a um delicioso projecto: A
TAKE Cinema Magazine que a todo o custo tentava não perder a pedalada, até não ter mais forças de aguentar o temível "auto-controlo de qualidade" e o crítico
deadline mensal
. Hoje olho para trás e vejo com orgulho como participei num dos mais importantes projectos do online, no que isso me tornou como pessoa e principalmente por assistir à confirmação do seu reconhecimento através da
Magazine HD, revista em papel que se encontra mensalmente nas bancas, na qual a equipa da Take colabora. Sinto uma plena satisfação pelo meu passado e vejo com esperanças um futuro para sempre ligado nesta área.

Quero só deixar uma última palavra para quem entrou na "onda" nos últimos anos, quem é caloiro nestas andanças do cinema e tem uns jovens 15 ou 16 anos:
Claro que agora dá jeito toda esta informação globalizada e instantânea, este avanço da tecnologia, o progresso, etc... Agora temos o DVD e o Blu Ray, temos a internet e os sites especializados, temos o CGI, temos uma panóplia de extravagâncias que torna o cinema um "monstro" ainda mais difícil de dominar... Mas já não é bem a mesma coisa.
(Obrigado por se juntarem a mim nestes nostálgicos textos. Espero que se tenham identificado com alguns pontos e vos motive a criarem também o vosso "livro de memórias")
Edgar Ascensão
20 Dezembro 2010