03/07/09

CINEPÉDIA - AKIMBO

O cinema está repleto de expressões invulgares, de uma gíria cinematográfica, vulgo calão. Os artistas e críticos acabam invariavelmente por classificar os clichés cinematográficos com vocabulário...
O uso constante destes engenhos narrativos veio a criar a Cinepedia.


Akimbo (Dual wielding)
Cenas de intenso tiroteio no clímax da acção geram novas criações artísticas, com diversos oponentes digladiando-se entre si. Algumas das características flagrantes nestas situações são a posição das armas denominadas de Akimbo. Geralmente ilustrado quando cada uma das mãos carrega uma arma, duas pistolas por cada pessoa. O uso dessa táctica reflectiu-se naturalmente nos filmes western, para motivos mais práticos como disparar mais vezes que o inimigo.
A fama chegou com os filmes de acção produzidos em Hong Kong, conhecidos por usarem pistolas gémeas e contribuírem para um tiroteio mais estilizado e vigoroso. Um poder de fogo mais concentrado em alvos isolados com um par de armas sempre faz mais estragos. Estes sucessivos disparos de pistola dão origem ao termo “Estilo Woo”, referente à utilização empregue pelo realizador John Woo nos seus filmes. É com os Heroic Bloodshed, géneros de acção com sequências carregadas de acção e temas dramáticos como fraternidade, dever, honra, redenção e violência, que carregam consigo uma gigantesca teatralização de tiroteio, repleta de sangue e balas. A better tomorrow, Hard Boiler e The killer representam um expoente máximo destas formas artísticas no cinema oriental.

Estas características passaram para o outro lado do mundo, com películas de Hollywood a demonstrarem cada vez mais estas tácticas. Logo o estilo se propagou para outros realizadores, que pegaram nele devido ao seu estiloso aspecto, ignorando o seu propósito original, que se propaga para títulos como Hot Fuzz ou Eraser. E mesmo o próprio John Woo reinventa-se em Face Off. Proliferam também nos videojogos estas tendências, como exemplar na perfeição o de Lara Croft em Tomb Raider e Hitman, ambos os filmes aproveitados para as duas plataformas audiovisuais.
Voltando aos westerns, o uso de armas aos pares faz com que a cena se torne mais barulhenta e cativante. Disparar como loucos uns punhados de balas poderá contrastar visivelmente com os policiais de hoje. Nesses, quem disparasse mais de uma arma de cada vez é caracterizado como o destrutivo psicopata sem escrúpulos para com danos colaterais. Ao contrário do polícia protagonista, que mostra o seu carácter disparando com apenas uma e com ambas as mãos. Técnica mais fiável, certamente.
Na vida real, o uso desta táctica é irrealista e impraticável. Disparar em objectos diferentes ao mesmo tempo e em movimento apenas resulta em cinema. O entretenimento ao serviço do espectador. É graças ao espectáculo cinematográfico que nascem outras variantes, mais elaboradas e complexas.


Gun Fu
Kung Fu com armas, como é livremente traduzido. É a base para descrever o sofisticado jogo de tiros entre adversários. Como uma mistura de ‘mano-a-mano’ entre o estilo de disparar aos pares, em plena corrida e mesmo atirar de costas. Notavelmente, provém do mesmo meio de onde obteve a fama, no cinema asiático. Vermos Chow Yun-Fat disparar ferozmente enquanto salta para o chão é imagem de marca desta vertente. Por Hollywood, temos o Last man standing, garantindo Bruce Willis como um especialista da técnica. Desperado liberta um toque exótico pelas mãos de Banderas e cria no bar uma fenomenal cena de antologia.
Torna-se cliché com o passar dos anos, mas renovando-se imediatamente: A câmara lenta de mãos dadas com o efeito ‘bullet-time’ é a ordem do dia em filmes do género. Quem não se lembra de The Matrix e a sequência no átrio, no perfeito exemplo de Gun Fu moderno. As semelhanças dos movimentos dos atiradores com um bailado numa coreografia corporal, enquanto recarregam as armas e as despejam de seguida num rol de destruição e classe, pedia logo uma nova abordagem às batalhas armadas…


Gun Kata
É desde já uma nova abordagem do Gun Fu, numa extensão mais elaborada da sua aparência. Chamam-no uma arte marcial cinemática construída para criar tiroteios artisticamente apelativos não recriando a realidade. Desafia as leis da probabilidade e do incrédulo, desde logo destacando-se do Gun Fu por resultar numa técnica mais agressiva. E inteligente: A principal característica está no evitar das balas assumindo uma série de posições de corpo predefinidas.
O conceito foi criado por Kurt Wimmer, realizador de Equilibrium e Ultraviolet, ajudado pelo coreógrafo Jim Vickers, que usaram com aptidão nas suas sequências de acção. O seu uso ultrapassa as formas de luta de proximidade de outros tempos. As lutas corpo a corpo envolvem pistolas, com golpes contra o corpo do adversário em vez de a disparar. Por exemplo, em Ultraviolet a personagem de Milla Jovovich move-se de modo a que não só se desvie dos disparos como também simultaneamente faça os inimigos dispararem uns contra os outros.


Saiba também que...
New York reload
Ver Neo em The Matrix gastar o par de armas, deitá-las fora e pegar numas novas e carregadas do casaco não é situação invulgar. O acto de sacar outras pistolas para ganhar uma ligeira vantagem tem origem nos polícias de New York, que carregavam consigo uma arma de reserva em vez de perder tempo a carregar as munições.


Jar’Kai
Akimbo com ‘Sabres laser’. O estilo permite ao Jedi usar os dois sabres de modo mais ofensivo, ou equilibrando a luta de modo a atacar com um e defender com outro.


Car Fu
A expressão aparece por estreias de Speed Racer. É o Kung Fu com carros, um misto de malabarismos automobilísticos de pilotos cujos veículos se digladiam em pleno ar.


Não confundir com...
Mexican Standoff

Refere-se a um impasse ou um entrave estratégico entre adversários, enquanto todos se apontam armas uns aos outros de modo a que cada oponente se sinta igualmente ameaçado. Os western Spaghetti e filmes de acção elevaram-no para a popularidade, onde se destaca Reservoir Dogs como um dos grandes símbolos da condição. Por outro lado, o Truelo explorado em O bom, o mau e o vilão não se enquadra neste caso.


(NOVO!)
Wire Fu
Combinação de wire-work (trabalho por cabos) com Kung Fu. É um efeito mecânico, onde os cabos que sustêm um actor servem para libertá-lo da gravidade e poder realizar qualquer movimento sem limitações físicas. Na pós-produção os cabos são eliminados digitalmente, ficando assim uma impressão de suspensão.
O wire fu tenta combinar esses movimentos com os do Kung Fu, como se literalmente estivesse lutando no ar. Desde os filmes de Hong Kong que utiliza há muito tempo, Hollywood já se apropriou da técnica para os seus filmes. Desde The Matrix, Charlie's Angels a Kill Bill. No Oriente não esqueceram a aprendizagem do passado e ainda a aplicam em filmes como Crounching Tiger, Hidden Dragon ou Kung-Fu-Hustle.

Artigo originalmente publicado na TAKE nº4, Julho 2008

1 comentário:

Pedro Pereira disse...

Excelente post. gosto especialmente do Jar’Kai