18/08/09

Cinepédia - NOIR

O cinema está repleto de expressões invulgares, de uma gíria cinematográfica, vulgo calão. Os artistas e críticos acabam invariavelmente por classificar os clichés cinematográficos com vocabulário... O uso constante destes engenhos narrativos veio a criar a Cinepédia.




NOIR
De volta a sub-géneros menos reconhecidos, ou apenas inclassificáveis pelo seu nome de uso corrente, regressamos um pouco ao passado para descobrir a profundidade que o género Noir conseguiu através de todos estes anos. As suas derivações, bifurcações e junções com outros géneros (terror, ficção-científica) criaram um universo tão complexo como enriquecedor para o cinéfilo comum.


Neo-noir
Como se classifica o Noir? Um estilo visual, um tom, um género, um movimento, um ciclo? É essencialmente um cunho do cinema dos anos 40 e 50 que viajou para os tempos modernos, sobrevivendo a revoluções artísticas, tendências e mentalidades. Hoje o filme Noir existe e mantém-se fortemente enraizado nas constantes produções cinematográficas. Dá pelo nome de Neo-noir, dado que o seu tipo utiliza todos os elementos do Noir clássico, embora com temas renovados, conteúdos e elementos visuais incluídos para um mundo dos nossos dias. Nas telas, o 1:33 dá lugar aos cinemascopes e anamórficos. É o Novo Noir.
Desde Chinatown de Polansky que a ressucitação do estilo vem mostrando que tem cartas para dar. Da última década salientam-se obras de qualidade inegável como
Basic Instinct, Reservoir Dogs, Fargo, Heat ou LA Confidencial. Muitos realizadores prosseguem por este derivado, com Michael Mann a revelar-se como discípulo mais fiel e talentoso. As suas películas apresentam as tradições Noir mais modernistas sem perder a expressão de autor. De Heat a Mimai Vice, passando por Collateral, a sua filmografia rege-se pelos padrões do Noir.



Psycho-noir
Reconhecido como o Noir mais psicológico, é uma área menos propensa a reunião de massas, de concordância entre público e críticos. É o canto reservado para as obras de culto e realizador mais experimentais. O grande nome que se retira daqui é o de David Lynch. O seu trabalho, particularmente Blue Velvet, Lost Highway e Mulholland Drive, mostram uma influência do Noir filtrado pela sua visão única dos protagonistas demarcados de uma sociedade abstracta. O Psycho-noir é um ciclo bizarro nas mentes dos desajustados.
David Cronenberg revela-se outro seguidor desta tendência, embora num ângulo mais ou menos grotesco e carnal. Naked Lunch e Crash revestem-no numa aura de Noir diferente dos clássicos, talvez por aprofundar em demasia a sua apetência pelo bizarro e do subconsciente das personagens.
Mais recentemente outro cineasta mostra o seu talento na área. Coincidências à parte outro David, de apelido Fincher, tem pisado terrenos de diversos Noir para a sua exemplar filmografia. Quando Fincher se iniciou com F-C noir em Alien3 e no Neo-noir de Seven, acabou também por desconstruir emoções no Psycho-noir chamado Fight Club.
Outros títulos soltos pintam este retrato mais abstracto do Noir, onde entram filmes como The Machinist, Memento, Old Boy ou mais no passado com Taxi Driver e M de Fritz Lang.



Science fiction noir
A Ficção Científica dá mostras de grande crescimento nos anos 80. Filmes de culto juntamente com sucessos de bilheteira dão margem para a F-C evoluir para outras vertentes. O Noir não foi excepção. Inicia-se um Noir tecnológico, cibernético e futurista.
Era em 1973 que o primeiro grande exemplo surgiria. Soylent Green prenderia o estilo que a F-C cunhava no género Noir. Retrato de um cenário distópico futurista, apocalíptico e com um argumento evidentemente obscuro. A perspectiva cínica do Noir clássico teve efeitos no ‘Cyberpunk’ que explodia então na década de 80. Harrison Ford como detective Rick Deckard em Blade Runner seria o padrinho desta evolução. Tal como em diversos clássicos do género, a história centra-se numa Los Angeles chuvosa e noctívaga. Ridley Scott prestaria então uma bela homenagem ao género Noir.
Passam-se os anos e a F-C ganha uma importância artística francamente reconhecida para além das viagens espaciais ou seres alienígenas. Assim, hoje relembram-se como exemplos mais notáveis do Future-noir, filmes como Twelve Monkeys, Dark City, Gattaca, Minority Report, Thirteenth Floor, passando pela animação de Ghost in the Shell e a curta A Detective Story da compilação Animatrix.



Tech Noir
O F-C Noir ganhou uma alcunha mais pessoal quando James Cameron deu a conhecer Terminator em 1984. O baptismo deu-se com o nome do bar que Schwarzenegger atacava e destruía, em prol da sua missão. Era em letras garrafais e luminosas por cima do balcão que apareciam duas pequenas palavras: “TECH NOIR”.
Foi com este bar que James Cameron veio inventar um novo código para estas andanças, para clarificar um estilo que já se falava desde Blade Runner, dois anos antes.




SAIBA TAMBÉM QUE...
Hard-boiled
Temos nos thrillers o nosso imaginário do Noir da década de 40. O jogo de luz e sombra que provoca outros ambientes. Disso dependeu também novos estilos, novas tendências. O típico detective com a silhueta por detrás da porta, fumando um cigarro parte do princípio do Filme Noir. A ficção Hardboiled é frequentemente associada a histórias policiais, detectives que se distinguem por insensíveis perante o crime, violência e sedução. É o Noir transformando-se em “Dark”, numa Hollywood vil e agonizada. São os diálogos secos e insultuosos, as mulheres assassinas, as balas que saltam da pistola violentamente contra o criminoso. É hoje uma fracção do Noir mais aproveitada, repartindo-se em exemplos como Payback, Sin City e recentemente Max Payne.



Artigo originalmente publicado na TAKE nº7, Setembro 2008

5 comentários:

Roberto F. A. Simões disse...

Parabéns, tens aqui um artigo muito muito bem escrito e estruturado. Gostei de ler.

Cumps.
Roberto Simões
CINEROAD - A Estrada do Cinema

brain-mixer disse...

Obrigado Roberto.Quando a Cinepédia aparecia na Take, passava um pouco despercebida... Colocando-os aqui novamente, dá um pouco mais de visibilidade, para quem ainda não descobriu :D
Abraço

ArmPauloFerreira disse...

Muito bom artigo...
Realmente assim soltos no blog ganham mais efeitos que na revista Take.
Curiosamente estranho até...

brain-mixer disse...

Arm, pois é... Deve ser do factor "imagens".
Mas também vejamos as coisas assim: A alta qualidade da Take faz tudo brilhar, tanto seja a minha rúbrica como outra qualquer ;)

pedro disse...

Excelente autópsia do género, gostei muito de ler. Uma continuação de um bom trabalho!