22/10/10

Renovar os clássicos

Com a conhecida polémica que rebentou para os lados da casa Spielberg, sobre a semelhança entre DisturbiaParanóia e Janela Indiscreta, deu azo a uma discussão sobre criatividade e direitos autorais.
Segundo reza o conflito, a noção de que Paranóia e Janela Indiscreta seriam a mesma história, que rendeu um processo judicial contra os produtores do recente filme. Assim sendo, a DreamWorks, Universal e todos os envolvidos no filme foram processados pelos proprietários dos direitos de autor que serviu de inspiração à obra de Hitchcock.
A queixa apresentada afirma que Paranóia e Janela Indiscreta são "em essência o mesmo”. A acusação indica que Spielberg e seus colaboradores implantaram "variações de pormenor" para encobrir que estava adaptando o mesmo argumento de Janela Indiscreta, cinco décadas após a estreia do original.
Mas não só a cópia ao filme de 1954 deu avanço a um processo. Também o plágio do conto “Murder from a Fixed Viewpoint” de Cornell Woolrich em 1942, no qual se baseia o argumento do filme. Spielberg deveria ter obtido os direitos de autor, tal como fizeram Hitchcock por alturas da produção do clássico.

Curiosamente, o guião de “Paranóia” andou a circular anos a fio em Hollywood, antes que Steven Spielberg visse nele uma aposta segura. O argumento original de Christopher Landon esteve prestes a ser produzido em meados dos anos 90, mas um remake do próprio “Janela Indiscreta” (com Christopher Reeve no papel principal) estreou primeiro e mandou o projecto para a gaveta. A ideia voltou a ser mexida em 2004, para então rescrever o guião e dar uma cara jovem à história.

Apesar das semelhança tremendas, não será caso para tanto. Afinal em toda a história do cinema houve recuperações e actualizações de contos clássicos. É usual fazê-lo com as adaptações literárias de todos os tempos como garantia de sucesso. Desde a Odisseia de Homero, a Shakespeare e mesmo a todas as temáticas da própria Bíblia. Utilizar fórmulas já trabalhadas, das origens narrativas anteriormente criadas. Por exemplo, é conhecida a referência que George Lucas aponta para a sua mundialmente famosa saga Star Wars, associada aos maiores temas do passado. Apontou títulos tão díspares como Lord of the Rings, Sete Samurais e tantos outros géneros dispersos, como os westerns e filmes de capa e espada. Ora, ninguém o veio chatear com acusações de plágio e afins. Talvez por diluir prontamente as semelhanças com um espírito de homenagem às obras do passado. Matrix parte do mesmo conceito e não faz dele por isso uma obra menor. Longe disso. Outro exemplo recente, Eagle Eye faz o mesmo aos filmes de espionagem. Desde temáticas tecnológicas de 2001 – Odisseia no espaço ou I, Robot, a Enemy of the States e novamente outro filme de Hitchcock: Intriga Internacional. É evidente a noção de que se actualizam ideias, reunindo-as numa só história. Estranhamente, parte da mesma equipa de Paranóia (Spielberg, DJ Caruso e Shia LaBeouf).

Clones, plágios ou cópias, o essencial é honrar o que se fez anteriormente... Acima de tudo, todas estas “repescagens” acabam por aplicar a palavra-chave: INSPIRAÇÃO. Recuperar os clássicos e renovar as fórmulas é o ponto de partida. Broncas à parte, recapitulemos algumas dessas “obras semelhantes” que não tenham sido anunciadas como “remakes” de anteriores filmes.

Janela indiscreta (1954) / Paranóia (2007)
As semelhanças
Entre o filme de Alfred Hitchcock e de DJ Caruso, o princípio do filme é o mesmo: São duas histórias de mortes misteriosas que se desenvolvem a partir do que um homem testemunha, olhando pela janela de sua casa. As suspeitas de um assassinato recaem sobre o estranho comportamento de um dos vizinhos.
Jeff e Kale são extremamente parecidos. A limitação dos dois personagens está na perna. Enquanto Jeff partiu a perna e ficou confinado numa cadeira de rodas, Kale carrega um aparelho que o impede de se afastar por mais de 30 metros de sua casa.
As diferenças
Caruso não mudou muita coisa. Basicamente, “Paranóia” é “Janela Indiscreta” com telemóveis, câmaras de vídeo digitais e banda sonora mais barulhenta... Foi essencialmente produzido para uma faixa etária adolescente.
Os outros
Rear Window teve um remake para televisão em 1998.


Rio Bravo (1959) / Assalto à 13ª Esquadra (1976)
As semelhanças
Rio Bravo, realizado por Howard Hawks, conta a história de um cerco a um xerife, que enfrenta quase sozinho um poderoso rancheiro que pretende libertar um dos seus camaradas.
A história do filme de 76 deriva para um ataque a uma esquadra policial por parte de um gang, retribuindo a morte dos seus irmãos de armas.
As diferenças
Carpenter seleccionou alguns elementos do western, instalando a acção em Los Angeles dos anos setenta.
Os outros
O primeiro remake do western, El Dorado, estreou em 1967.
Assalto à 13ª Esquadra teve direito a refilmagem em 2005.
Poderíamos dar seguimento com Nid de Guêpes (2002), já que é outro exemplo de inspiração aos dois filmes analisados, sem que seja um remake de qualquer um deles.



Moby Dick (1956) / Jaws (1975)
As semelhanças
Ambos contêm uma luta colossal entre homens e animais marinhos, com a obsessão pela captura daquele gigante ser dos mares. Em Moby Dick, consumido por uma raiva completamente insana, o Capitão Ahab tem apenas um objectivo na vida - vingar-se da grande baleia branca que o feriu e desfigurou. Em Jaws, o personagem de Quint é fortemente parecido a Ahab. Mesmo no seu monólogo, revela a sua idêntica fixação contra o animal. Ambos culminarão numa luta épica de uma fúria sem fim. Com o mesmo destino para os dois capitães.
As diferenças
Baleia ou tubarão. Mas ambos enormes e famintos. E Jaws é baseado noutro livro que não o de Herman Melville, mas sim de Peter Benchley. Este último foi inspirado nos ataques de tubarões na costa da Jersey em 1916 e desenvolve o argumento partindo do pânico que se instalaria numa cidade turística à beira-mar.
Os outros
Moby Dick teve pelo menos cinco versões em 1930, 1956 (o mais aclamado), 1978, 1998 (para TV) e 1999. Anunciou-se outro remake para 2011.
Jaws teve três sequelas, nenhuma delas realizada por Spielberg.
Paralelamente, estrearam vorazmente outros filmes que aproveitaram a boa onda de Jaws: Piranhas, Alligator, Orca, entre tantos outros...


War of the Worlds (1953) / Independence Day (1996)
As semelhanças
A invasão extraterrestre é o mote para a destruição da humanidade. Em ambos surgem enormes naves que arrasam tudo à sua passagem. A luta pela sobrevivência torna-se o objectivo imediato. A Guerra dos Mundos acabou por surpreender com os impressionantes efeitos especiais na época, com o Technicolor a coroar a fita. ID4 fez o mesmo em 96, acabando por ser rei e senhor dos blockbusters desse ano. Há também neste último algumas referências ao filme de 1953: A utilização da bomba atómica que acaba por falhar e uma homenagem representando os três helicópteros que são destruídos enquanto tenta comunicar com a nave destruidora.
As diferenças
Enquanto na Guerra dos Mundos a história é essencialmente centralizada num grupo de indivíduos encalhados no completo caos, o Dia da Independência tem o patriotismo americano como pano de fundo. Como trunfo tem um militarismo mais extremo e ponto central em toda a trama.
Apesar dos originais serem oriundos de Marte, na versão de Emmerich não dão qualquer explicação da proveniência dos extraterrestres. Há também a principal semelhança que faz a grande diferença: Um resolve a catástrofe simplesmente com um vírus biológico, o outro opta pelo vírus informático.
Os outros
Derivado de War of the Worlds, uma série TV em 1988.
Spielberg realizou o remake em 2005. Aproveitando a produção, outros dois remakes televisivos saíram no mesmo ano.
Podemos ainda adiantar que Mars Attacks! de Tim Burton leva o mesmo tratamento que Independence Day. Por coincidência, ambos estrearam no mesmo ano. Mas Burton apostou num tom satírico e humorístico. Também no final as criaturas são vencidas não por vírus, mas pela música de Slim Whitman. Comédia acima de tudo.



Saga James Bond (1962) / XXX (2002)
As semelhanças

Dois agentes secretos, dois heróis de acção. James Bond e Xander Cage tão parecidos como diferentes. Em ambos encontra-se lá tudo: As mulheres, os carros, as engenhocas as acrobacias e os vilões que querem destruir o mundo.
As diferenças
XXX foi lançado como o espião do século XXI, distanciando-se de 007 com a sua personalidade extrema. Os filmes de espionagem terão desta vez outra cara. Rebelde, agressiva e radical. Rejeita acima de tudo os tradicionais clichés e tem a lata de “matar” o estereotipo geralmente atribuído ao espião de fato no início do filme, óbvia alusão a James Bond.
Os outros
XXX levou com uma sequela em 2005 e preparam-se para regressar com Vin Diesel em data incerta.
Para além dos filmes de James Bond terem já rendido 22 filmes, entre muitas remodelações, o género foi já copiado e satirizado inúmeras vezes. Entre os mais conhecidos nomeiam-se Mission: Impossible, a trilogia Bourne, Get Smart, Johnny English, Austin Powers, a lista continua... Uns mais que outros, todos eles são herdeiros do sucesso de 007.


Fantastic Voyage (1966) / Innerspace (1987)
As semelhanças
Graças a uma tecnologia que permite reduzir a um tamanho microscópico, uma cápsula contendo cientistas é injectada no corpo de outro. É uma óptima desculpa para explorar outros efeitos e cenários decorativos. Em ambos puderam explorar o interior do organismo humano.
As diferenças
O clássico parte de uma emergência médica, enquanto que no Micro-herói é injectado acidentalmente. A Viagem fantástica tem uma equipa de cientistas enviada num submarino que é reduzido a tamanho microscópico e introduzido no corpo de uma pessoa, a fim de destruir um coágulo sanguíneo. Era a solução para salvar a vida do paciente. Com uma história totalmente diferente, o filme de Joe Dante joga com outros temas entre a comédia e a espionagem. Spielberg, que produziu o filme, deu a volta à ideia desviando-se dos assuntos clínicos do original. Quiseram apostar numa história original mantendo apenas a ideia da miniaturização.
Os outros
Viagem Fantástica foi seguido de uma série TV animada dois anos depois.
Pelo menos outro filme segue a mesma premissa. A animação Osmosis Jones (2001) explora os mesmos conceitos de cura medicinal no interior do corpo, embora noutros moldes narrativos.
Há planos para um remake do filme de 66, inicialmente com interesse de James Cameron e seguido de Roland Emmerich, que também abandonou o projecto. O filme está em pré-produção e espera-se que estreie em 2011.

Titanic (1958) / Poseidon (1969)
As semelhanças
Dois luxuosos navios compartilham a mesma história de catástrofe, afundados em pleno mar por forças da natureza. Enormidades de aço supostamente indestrutíveis que aprisionam dentro delas um punhado de sobreviventes, que desesperadamente tentam salvar-se antes da submersão total do navio. É a natureza superior à megalómana ciência, numa lição de humildade. A luta pela sobrevivência entre classes sociais completa a trama. A aventura de Poseidon iniciou aqui uma febre dos filmes-catástrofe, quando idealizou uma história idêntica à do inesquecível Titanic. A Torre do Inferno faria o mesmo para Poseidon, tocando o mar por um prédio em chamas. Filmes recheados de um enorme elenco de estrelas que seriam a fórmula secreta para sucessos de bilheteira.
As diferenças
Troque-se um iceberg por uma onda gigante. A forma de cada navio se desintegrar muda conforme o filme. É tudo uma questão de rotação do eixo...
Os outros
Titanic foi vezes sem conta recontado para o cinema. Desde 1912, pouco depois da catástrofe, que se produzem filmes dramáticos sobre o infame navio houve versões em 1929, 1943, 1953, passando por um telefilme em 1979 e uma mini-série em 1996. Em 1958, A Night to remember tornou-se num dos mais famosos, até James Cameron mostrar a sua visão dos acontecimentos em 1997.
Poseidon por seu lado, deu continuidade à catástrofe em 1979 com Beyond the Poseidon Adventure. Em forma de remake surgiu um telefilme de 2005 e foi lançado outro em 2006, realizado por Wolfgang Petersen.


Romeo & Juliet (1936) / West Side Story (1961)
As semelhanças
Pode-se afirmar que West Side Story é Romeu & Julieta na actualidade, com todo o romance e conflitos idênticos num e noutro. Temos o casal apaixonado, as rivalidades, as mortes nas duas histórias. É um “quase remake”. O filme de Robert Wise adaptaria o musical da Broadway para cinema, já esta peça teatral que seria totalmente inspirada na obra de Shakespeare. Mude-se-lhe o nome e temos basicamente o mesmo produto.
As diferenças
Substituam-se as rivalidades das duas famílias por gangs de rua. De Capuleto Versus Montecchio, temos assim Jets Versus Sharks. A cidade também muda e Verona dá lugar a New York. O século XVI cede ao século XX. E principalmente, o final do musical é diferente, não sendo tão trágico como a obra de Shakespeare.
Os outros
Romeu & Julieta é das obra mais adaptadas da história, rondando umas trinta adaptações. A mais notável é a de George Cukor em 1936, multi-nomeada nos Óscares. Baz Luhrmann fez uma versão também inesquecível em 1996, com uma linguagem MTV e acção passada no nosso século. São ambos os filmes mais rentáveis de todas as obras do escritor.
Outros tantos filmes, não sendo adaptação fiel, inspiraram-se no enredo para contar uma nova história, utilizando elementos da obra do escritor. Shakespeare in Love e Romeo must die são exemplos reconhecidos como tal.

My Fair Lady (1964) / The Princess Diaries (2001)
As semelhanças
Alguém de um status social elevado pega numa personalidade mais "tosca" e devolver-lhe o glamour e comportamento que necessita. É polir as arestas de uma rapariga aparentemente normal. Temos daqueles professores género "Tim Gunn" a apontar o dedo a tudo e serem compreensíveis no que toca a desastres emocionais.
As diferenças My Fair Lady baseia-se num musical. Uma aposta como se pode mudar uma pessoa através do sotaque é o ponto de partida. Em The Princess Diaries, adaptação de uma série de livros, a necessidade de transformar a rapariga deve-se a ela fazer parte de uma realeza sem que tenha consciência disso.
Os outrosMy Fair Lady poderá ter um remake a caminho lá para 2012. Fala-se em Keira Knightley...Uma sequela de The Princess Diaries surgiu em 2004.Lembram-se de Pretty Woman? Troquem a florista de My Fair Lady por uma prostituta. Voilá!Sandra Bullock também no mesmo balde: Miss Congeniality transforma uma polícia maria-rapaz numa verdadeira Miss.E ainda Anastasia, um parente pobre de ambos os filmes, com a Rússia a servir de cenário. Em 1956 surge uma adaptação cinematográfica a partir da peça de teatro homónima. Em 1997 a Fox produziu uma animação pela Fox, embora com largas alterações ao original.

Dr Jekyl & Mr Hyde (1931) / Nutty Professor (1961)
As semelhanças
Num daqueles laboratório escondidos na cave, um cientista "louco", "genial" ou apenas "visionário" conduz experiências biológicas capazes de gerar mutações no corpo humano. Frankenstein? Nada a ver...
As diferenças
O clássico da Universal seguia a senda de sucessos dos filmes de terror (Dracula, Múmia, Homem-Invisível, Lobisomen, etc) e deu-nos um clássico do género. Mas o de Jerry Lewis decidiu pegá-lo do seu jeito: A comédia tresloucada. Mas se entre ambos se toma a 'poção mágica', os efeitos são completamente opostos. De um monstro assassino para um playboy ganancioso vai um largo passo. Entre a monstruosidade e a masculinidade, é a tentação humana de ambos os filmes que faz o fio narrativo.
Os outros
Há cerca de 123 adaptações do clássico, entre as mais famosas datadas de 1931 e 1941. The Nutty Professor teve um popular remake com Eddie Murphy em 1996. Estranhamente, Jerry Lewis fez uma sequela do seu filme em animação CGI, em 2008, que nada tem a ver com o remake de Eddie Murphy ou a sequela The Klumps.

6 comentários:

Peter Gunn disse...

Excelente comparativo de ideias amigo Brain :)

Realmente, como dizia Lavoisier, nada de se perde ou ganha... tudo se transforma! Se bem que poucoas vezes é devido a motivos artisticos mas sim monetários.

De longe a longe lá aparece um bom "remake" que até se safa mas hoje em dia é quase insuportável a quantidade de recriações a que hollywood nos sujeita anualmente.

Se ao menos ficassem só pelos clássicos dos anos 30 ou 40 ainda escapava...

Um abraço

Miguel C. disse...

Wow. Excelente artigo, super alargado e com muita qualidade.

Sem dúvida deve ter dado imenso trabalho, merece pelo menos um comentário para dar força ao autor.

Em relação aos filmes que comparas, não vi todos logo não posso falar, mas dos que vi e comparas tenho realmente de concordar com as tuas ideais.

brain-mixer disse...

PG, eu queria ainda acrescentar mais um ou dois exemplos, mas atravessava a ténue linha entre reimaginação e remake. Apesar disso, os que estão representados, servem para explicar a situação.

Miguel, obrigado pelo reconhecimento, este artigo já estava escrito há imenso tempo. Mas com novas inclusões pelo meio, lá saiu ;)

Cumprimentos!

aPAULOf disse...

Excelente artigo mesmo!
Como sempre.
E até massivo pois bem poderias ter com todo este conteúdo divido isto em 3 posts...
Um artigo espectacular mesmo!


Obs: Tens Facebook? É que criou-se aí um grupo e dava jeito saber se tens algum espaço ou não no FB...

brain-mixer disse...

aPAULOf, é necessário reunir tudo num só post, porque no futuro facilita a leitura para quem ainda não leu... Fica tudo num só link.
Quanto a Facebook, eu não tenho (nem tenho intenções de ter), mas já me lembrei de ter um só para o blog, em forma "empresarial" :)
Abraço

aPAULOf disse...

Faz isso então mas cria o espaço como pessoal (ficas como Amigo) e não como página (que se adere com um simples Gosto) para dar para te aderir a um restrito grupo cinéfilo...
Este artigo já foi lá divulgado (por mim)...