11/03/09

CINEPÉDIA - Rashomôn



Rashomon
O efeito Rashomon parte do princípio de que um acontecimento pode ser observado e explicado de modos tão díspares por diversos indivíduos. Os depoimentos das múltiplas testemunhas tornam-se substancialmente diferentes, embora credíveis, dependendo do contexto em que se inserem no evento. Devido à diferente percepção de cada um dos personagens em diversos modos e locais de presença, a subjectividade acaba por se perder ao ponto de alterar elementos-chave e detalhes, ao presenciar esse preciso momento.


A expressão nasceu com o filme homónimo de Akira Kurosawa, Rashômon, sobre um crime (violação a homicídio) contado por quatro testemunhas diferentes. Cada uma delas com o seu ponto de vista, tenta descobrir-se quem diz a verdade. Mas a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de obter a verdade incontestável devido a contradições desses testemunhos acaba por desenvolver uma narrativa complexa, densa e labiríntica. A obra-prima do cineasta japonês introduziu este título de filme no vocabulário cinematográfico. Acabou por ver um remake americano ser realizado em 1964 com o título de The Outrage.


Em 1941, Citizen Kane tinha já pretendido usar uma dessas formas de contar a sua história. A de um magnata da imprensa que após a sua morte, se cria uma investigação para melhor conhecer a sua vida. Os diversos depoimentos das pessoas ligadas pessoalmente a Charles Foster Kane construíram o filme por meios de ideias gerais do forro íntimo de uma vida inteira. Orson Welles não tocaria no ponto exemplar de Rashômon, o de um só momento idêntico a ser analisado. Foi a genialidade do argumento japonês, com as suas diversas camadas de interesses individuais e encobertos por jogos psicológicos que criou tal culto. O tema é tão revolucionário quanto o método com que é abordado. Nos anos 50 este tipo de enredo era invulgar e levou a que o filme se elevasse acima de outros demais. Este método não passou ignorado no campo da psicologia e também deu o seu nome a situações reais desse género. Quando uma posição e relação pessoal estejam de certo modo ligadas ao acontecimento, isso vai determinar como a pessoa o irá identificar. A complexidade da percepção de cada interveniente cria um conflito de argumentos. Cria também um jogo do gato e do rato, transportado por cada uma das bocas que conta o sucedido. Este confronto é usualmente transposto para ambientes como o thriller, o drama militar ou o policial.

Grandes exemplos desse género são Under Suspiction e Hero. O primeiro gira em volta de um interrogatório que acaba por adensar demasiado na vida íntima dos suspeitos. As perguntas feitas aos interrogados tentam dar alguma luz à resolução de um crime de violação. O filme chinês de Yimou Zhang é largamente comparado com o filme de Kurosawa. É contada a história de um guerreiro que matou três homens até chegar ao Rei da China Feudal, onde este lhe pede que conte todo esse feito. Mas o Rei nota algumas falhas no relato…


É com enredos manipulatórios que este tipo de filmes se vai desenrolando. A falta de elementos-chave dificulta a resolução do caso. Com mentiras e suposições enganosas à mistura, a suspeita está omnipresente. Outro exemplo mais recente é Basic, de John McTiernan: Uma missão militar que correu mal acaba num gigantesco novelo difícil de se lhe ver a ponta final. O enredo envolve-se por entre numerosas surpresas e acaba no inevitável twist em filmes deste género.

Afinal de contas, é isto que torna uma história interessante. Outro dos casos ambientados em mundos militares é Courage Under Fire, de Edward Zwick. Outra situação que correu mal em a investigação que surge daí é preponderante a perspectiva de cada soldado envolvido. Mas tal como em todos os thrillers, há degraus de verdades. A cada degrau, a cada camada revelam-se mais mentiras e contradições. O uso de flashbacks é evidentemente obrigatório (todos eles com pontos de vista diferentes), o que torna um puzzle visual difícil de reunir para o espectador absorvido.

O último exemplo e o mais flagrante uso da técnica é Vantage Point. Há uma tentativa de assassinato ao Presidente dos EUA seguida por 8 estranhos, cada um deles com um ponto de vista diferente. No meio de uma multidão as suas perspectivas dos 15 minutos antes e depois do atentado, acabam por se ligar e colidir umas com as outras. Apenas no final se constrói todo o puzzle conspirativo deste atentado.


Para outros visionamentos sobre este tópico aconselham-se diversas obras como A Very Long Engagement, Hoodwinked, Memento e JFK. Há a persuasão verbal ao interrogador para fazer crer que está a dizer a verdade levando-o a acreditar no suspeito, o comportamento que quer induzir em erro alguém de que mente (ou não), as tentativas de fintar uma pergunta traiçoeira e tal como os diálogos inteligentes, são o ponto fulcral de qualquer tipo de filme que tente assumir este género. Um jogo psicológico mental que acaba frequentemente numa conclusão inesperada.

Artigo publicado na TAKE nº1, Março 2008

5 comentários:

Peter Gunn disse...

Excelente artigo como de costume!

Por acaso não me lembrava já que este tipo de situação se denominava "Rashomon" mas é uma das que mais me prende aos filmes pois realmente consegue fazer-nos dar voltas à cabeça a tentar saber onde reside a verdade.

Assim que comecei a ler lembrei-me realmente do Hero pois foi dos filmes deste género que mais gostei de ver nos ultimos tempos. Outro filme que usa um "bocadinho" desta técnica para contar a estória é o "Olhos da Serpente" do Brian de Palma, que não está nada mau ;)

Um abraço

brain-mixer disse...

Peter,é o verdadeiro tipo de filmes "quebra-cabeças" :P
E é verdade, O Snake Eyes tem também esse jogo de verdades e mentiras, com testemunhos contraditórios...
Exemplos há muitos!

Abraço ;)

Fifeco disse...

Excelente artigo de facto, sobretudo tendo em conta a qualidade emanada pelo filme de Kurosawa. É um método muito interessante de contar a história de facto. Pelo menos é original, ou era, tendo em conta o vasto número de exemplos que temos. Contudo, se for bem feito, o resultado é bom. Memento é perfeito nesse aspecto (e nos outros também vá).

Abraço

Fernando Ribeiro disse...

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brain-mixer disse...

Fifeco, que venham muitos (e bons de preferência)
Abraço!